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Antes da inteligência artificial, vem a consciência.

Foto do escritor: Vinicius Montana
Vinicius Montana
há 5 dias
8 min de leitura

Criatividade, autoria, pensamento crítico, responsabilidade e cuidado orientam a forma como escolhemos usar IA.



Nas últimas semanas, a discussão sobre inteligência artificial ganhou contornos que, até pouco tempo atrás, poderiam parecer ficção científica. Pesquisadores ligados à Anthropic, uma das empresas que estão na fronteira do desenvolvimento dessa tecnologia, vieram a público falar sobre riscos extremos associados ao avanço de sistemas cada vez mais poderosos. Jacob Coxon deixou a empresa e o setor alertando para aquilo que considera uma corrida perigosa. Evan Hubinger, líder de Alignment Science da Anthropic, afirmou publicamente que, em sua avaliação pessoal, existe uma probabilidade superior a 10% de a IA provocar a extinção humana na próxima década. [1]


É uma afirmação enorme e precisa ser tratada como aquilo que é: uma avaliação de pesquisadores que trabalham diretamente com esses sistemas, e não uma previsão científica estabelecida. Não sabemos se algo assim acontecerá e não me interessa transformar incerteza em alarmismo. Há pesquisadores que questionam esse tipo de estimativa e discutem até que ponto é possível atribuir probabilidades confiáveis a cenários tão complexos e incertos. [2] O que me chama a atenção é outra coisa: se algumas das próprias pessoas envolvidas na construção dessa tecnologia estão discutindo publicamente riscos dessa magnitude, talvez nossa relação com ela mereça mais reflexão do que simplesmente sermos a favor ou contra.


O próprio Dario Amodei, CEO e cofundador da Anthropic, tem falado publicamente sobre os riscos associados ao ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial e sobre a necessidade de criar salvaguardas capazes de acompanhar essa evolução. [3] Ao mesmo tempo, tenho dificuldade em imaginar que seja possível simplesmente apertar um botão e voltar ao mundo anterior à IA. A tecnologia já existe. Está incorporada a empresas, escolas, plataformas, processos criativos, pesquisas e formas de trabalho. Há investimentos gigantescos, interesses econômicos, científicos e geopolíticos envolvidos. A questão, portanto, não me parece ser como impedir que essa transformação exista, mas como atravessá-la.


Como fazemos essa transição?

Como incorporamos uma tecnologia tão poderosa sem entregar a ela, por conveniência, capacidades que ainda precisamos cultivar em nós mesmos? Como aproveitamos seus benefícios sem ignorar autoria, privacidade, desigualdades, impactos ambientais e as pessoas envolvidas em toda essa cadeia? Como estabelecemos critérios e limites enquanto ainda estamos aprendendo a compreender aquilo que estamos criando?


Essa discussão fica especialmente próxima de mim quando penso no universo da criação e do design. De um lado, vejo uma resistência cada vez mais evidente. Artistas, designers, escritores, fotógrafos e outros profissionais questionam como essas tecnologias são treinadas, discutem autoria e direitos e observam com receio a possibilidade de processos criativos complexos serem reduzidos a uma sequência de comandos. São questões legítimas e que não deveriam ser tratadas simplesmente como resistência à tecnologia ou medo do novo.


Do outro lado, vejo um movimento quase oposto: uma adoção tão rápida que muitas vezes não deixa espaço para reflexão. Uma ideia, um texto, uma imagem, uma pesquisa, uma apresentação, uma decisão. Tudo pode começar com um prompt. Antes mesmo de tentarmos formular uma resposta, perguntamos à máquina.


Não me sinto confortável em nenhum desses extremos. Não acredito que a resposta seja rejeitar uma tecnologia que já está transformando profundamente nossa relação com o conhecimento, o trabalho e a criação. Mas também não acredito que evolução tecnológica signifique necessariamente evolução humana.

Entre rejeitar a IA e se entregar a ela, acredito que exista um terceiro caminho: o da consciência.


O que estamos entregando junto com as tarefas?


Uma das coisas que mais me interessam nessa discussão não é apenas aquilo que a inteligência artificial consegue fazer, mas aquilo que podemos deixar de fazer à medida que ela passa a fazer por nós. Essa diferença parece pequena, mas, para quem trabalha com criatividade, ela é enorme.


Quando criamos uma identidade, por exemplo, o resultado não nasce apenas no momento em que alguém desenha uma marca. Antes disso existe conversa, escuta, pesquisa, referências, repertório, discordâncias e experiências. Uma pessoa percebe algo que outra não percebeu. Uma pergunta muda o entendimento do problema. Uma referência encontra outra completamente diferente. Algumas ideias são abandonadas, outras amadurecem. Há coisas que surgem justamente porque pessoas estiveram juntas pensando sobre alguma coisa.


Tenho valorizado cada vez mais essa dimensão nos processos da Creators. Nossas sessões de cocriação não existem apenas para chegarmos a uma resposta. O processo também importa. A escuta, a troca, os diferentes olhares e o repertório individual de cada pessoa fazem parte do resultado, mesmo quando não conseguimos apontar exatamente onde cada um deles aparece no trabalho final.


É por isso que acredito que precisamos tomar cuidado para não confundir geração com criação. A inteligência artificial pode gerar possibilidades extraordinárias, ampliar repertórios, organizar informações, ajudar a visualizar hipóteses, questionar uma ideia e acelerar determinadas tarefas. Eu uso IA. A Creators usa IA. A questão nunca foi esconder ou negar isso. A questão é entender onde ela entra e, principalmente, onde queremos continuar presentes.


Quando eficiência se torna o único critério


Grande parte das tecnologias que incorporamos ao trabalho foi criada para economizar tempo, e há enorme valor nisso. A IA amplia essa capacidade de uma forma impressionante. Mas existe uma pergunta que tenho me feito com frequência: o que fazemos com o tempo que economizamos?


Se usamos inteligência artificial para pesquisar mais rápido, escrever mais rápido, criar mais rápido e produzir mais rápido apenas para preencher esse espaço com ainda mais produção, entramos em um ciclo difícil de sustentar. Mais prompts, mais imagens, mais textos, mais apresentações, mais conteúdo. Nesse contexto, eficiência deixa de ser apenas uma ferramenta e começa a determinar nossa relação com o trabalho.


Usar IA de forma consciente, portanto, não significa necessariamente usá-la menos. Pode significar fazer menos perguntas e formular perguntas melhores. Pode significar revisar uma resposta antes de pedir outra, verificar uma informação em vez de aceitar aquilo que parece convincente ou não gerar outras vinte imagens quando uma já resolveu o problema. E, em determinados momentos, pode significar perceber que aquela tarefa simplesmente não precisa de inteligência artificial.


A pergunta deixa de ser “quanto usamos IA?” e passa a ser “como estamos usando IA e para quê?”


Essa preocupação não se restringe ao universo da criação. Pesquisadores vêm discutindo também como preservar pensamento crítico e autonomia intelectual em uma relação cada vez mais próxima com sistemas generativos. Uma das propostas é justamente deixar de tratar a IA como um “oráculo” e utilizá-la mais como uma interlocutora que pode ser questionada, confrontada e criticada. [4]


O digital também ocupa o mundo físico


Há outra dimensão dessa conversa que me interessa especialmente. Chamamos essas tecnologias de digitais, falamos em nuvem e interagimos com interfaces que parecem quase imateriais. Mas nada disso existe fora do mundo físico. Por trás das nossas interações há data centers, processadores, redes, equipamentos, sistemas de refrigeração, consumo de energia e de água, além de cadeias inteiras de infraestrutura.


Reconhecer essa materialidade não significa transformar cada prompt em culpa. Acho, inclusive, que seria uma maneira bastante limitada de discutir sustentabilidade. Uma relação consciente com a tecnologia passa menos por culpabilizar o indivíduo e mais por compreender os sistemas dos quais fazemos parte. Uma interação isolada representa pouco dentro desse sistema; quando multiplicada em escala, passa a integrar uma infraestrutura de enorme dimensão.


Por isso, a questão ambiental também deveria fazer parte da maneira como pensamos o uso de IA. Não simplesmente para usar menos tecnologia, mas para questionar quando seu uso produz valor, quando representa desperdício e se precisamos realmente transformar toda possibilidade técnica em produção.


Não existe apenas uma pessoa e uma máquina nessa relação


Também precisamos superar a ideia de que usar inteligência artificial é uma relação privada entre uma pessoa e uma ferramenta. Existem outras pessoas envolvidas nesse processo. Quando colocamos uma fotografia em uma plataforma, existe alguém naquela fotografia. Quando usamos uma obra como referência, existe alguém que a criou. Quando enviamos informações de um projeto, existe um cliente que confiou aqueles dados a nós. Quando um sistema reproduz um estereótipo ou um viés, existem pessoas e grupos que podem ser afetados por aquilo.


Autoria, privacidade, confidencialidade, diversidade, imagem, voz, identidade e direitos não desaparecem porque uma inteligência artificial entrou no processo. Em alguns casos, a presença da IA torna ainda mais importante perguntar de onde veio determinado material, se podemos utilizá-lo, quais dados estamos compartilhando e quais consequências um resultado pode produzir.

Isso amplia a própria ideia de consciência. Não estamos falando apenas da relação entre uma pessoa e a IA, mas de uma relação que envolve pessoas, tecnologia, sociedade e planeta.


Foi daí que nasceu nossa política


Essas perguntas começaram a aparecer com frequência cada vez maior dentro da Creators. O que podemos enviar para uma IA? O que não podemos? Quando precisamos informar o cliente sobre sua utilização? Como trabalhar com referências sem simplesmente reproduzir o trabalho de outra pessoa? Como proteger informações confidenciais? Como preservar a autoria? Como evitar que eficiência substitua repertório, investigação e pensamento? E como garantir que nossos processos de design continuem sendo construídos também por escuta, diálogo, experiências, diferentes olhares e cocriação?


Em determinado momento, percebemos que não fazia mais sentido responder a tudo isso apenas caso a caso. Precisávamos estabelecer princípios. Foi assim que desenvolvemos a Política de Uso Consciente da Inteligência Artificial da Creators by Truth.


O documento também passou pela revisão da nossa parceira jurídica, a advogada Cecília Manara, que nos ajudou a transformar esses princípios em diretrizes mais consistentes, incorporando cuidados relacionados a privacidade e proteção de dados, confidencialidade, autoria e propriedade intelectual, uso de imagem e voz, responsabilidades e outros riscos jurídicos associados ao uso da inteligência artificial.


Esse processo foi importante porque não queríamos criar apenas uma carta de boas intenções. Queríamos que aquilo em que acreditamos pudesse orientar decisões reais no dia a dia, com critérios claros sobre o que fazemos, o que exige mais cuidado e quais responsabilidades não podem ser simplesmente transferidas para uma ferramenta.


A política, portanto, não nasceu para proibir a IA, nem para legitimar qualquer utilização dela. Nasceu para estabelecer critérios para a nossa própria prática: pensar antes de perguntar, preservar a participação humana, questionar e verificar respostas, proteger dados, respeitar autoria e direitos, observar vieses, manter transparência quando necessária, considerar impactos ambientais e assumir responsabilidade pelo que entregamos, independentemente das ferramentas utilizadas durante o processo.


Também não enxergamos essa política como uma resposta definitiva. Seria contraditório imaginar um documento imutável para orientar nossa relação com uma tecnologia que se transforma tão rapidamente. Ela precisará ser revisada, questionada e atualizada à medida que novas ferramentas, riscos, pesquisas e formas de utilização surgirem.


Ter princípios, porém, é diferente de esperar até termos todas as respostas.


O futuro da IA não depende apenas do que ela será capaz de fazer. Depende também da relação que escolheremos construir com ela. E é justamente aqui que acredito estar uma das discussões mais importantes deste momento.


Podemos construir uma relação em que a IA amplie nosso repertório sem substituir nossa curiosidade; acelere processos sem eliminar a experiência que existe no caminho; ajude a criar sem transformar criação em geração automática; organize conhecimento sem nos desobrigar de compreender; e sugira respostas sem retirar de nós a responsabilidade de questioná-las.


Podemos preservar nossa capacidade de pensar antes de perguntar, discordar da resposta, fazer nossas próprias escolhas, conversar com outras pessoas, criar juntos, experimentar, errar e mudar de ideia. E fazer tudo isso reconhecendo que a IA não existe apenas dentro de uma tela. Ela envolve pessoas, dados, direitos, energia, água, infraestrutura e impactos que também precisam fazer parte dessa conversa.


Estamos apenas começando a entender o que significa conviver com uma tecnologia capaz de participar de tantas dimensões da nossa vida. Por isso, mais do que tentar encerrar essa discussão com uma resposta, me interessa continuar fazendo a pergunta que, de alguma forma, também deu origem à nossa política:

Que relação queremos construir com a inteligência artificial?



Referências e leituras

[1] Axios — “Anthropic insiders warn AI could kill all humans” — 9 set. 2026 Reportagem sobre as declarações de Jacob Coxon e Evan Hubinger e o debate dentro da Anthropic sobre riscos extremos associados ao desenvolvimento de sistemas avançados de IA. https://www.axios.com/2026/09/09/anthropic-insiders-warn-ai-could-kill-all-humans

[2] Nature — “Will AI really kill us all? The science behind the hype” — 22 set. 2026 Análise sobre os cenários de risco existencial associados à inteligência artificial, as evidências disponíveis e as limitações de atribuir probabilidades precisas a acontecimentos altamente incertos. https://www.nature.com/articles/d41586-026-02941-3

[3] CBS News — entrevista com Dario Amodei sobre riscos e desaceleração do desenvolvimento da IA — 12 set. 2026 Entrevista com o CEO e cofundador da Anthropic sobre o ritmo de evolução dos sistemas, riscos associados e a necessidade de ampliar salvaguardas. https://www.cbsnews.com/news/anthropic-ceo-dario-amodei-calls-slowdown-ai-development/

[4] Nature — “Use AI as a sparring partner, not an oracle” — 9 set. 2026 Reflexão sobre o uso da inteligência artificial como interlocutora para questionamento e desenvolvimento do pensamento, em vez de uma fonte de respostas que devem ser simplesmente aceitas. https://www.nature.com/articles/d41586-026-02846-1



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